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Como a crise do PSDB pode comprometer as pretensões eleitorais do partido em 2018

“Ou o PSDB desembarca do governo, ou se tornará coadjuvante na briga sucessória”. Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República (Crédito:Ernesto Rodrigues/Folhapress)
A fuzarca tomou conta do ninho tucano e sobrou pena para todo lado. Os caciques não se bicam. De FHC, que começou a semana criando uma celeuma por conta de um artigo divulgado sem combinar com os russos da legenda, a Tasso Jereissati e Aécio Neves, que terminaram a semana num bate-boca público. Com o partido cada vez mais rachado, as brigas internas já viraram rotina. As correntes da legenda compõem uma miríade de interesses. Uma ala dos tucanos pede o desembarque imediato do governo de Michel Temer. Outra, quer a permanência em cargos no Executivo. Há também os que concorrem pela presidência da legenda. O pano de fundo é outra refrega: em jogo a candidatura ao Planalto ano que vem. A disputa é cruenta. Na prática há um novo ninho, e um novo clima, ainda dominado por um bloco de caciques disposto a repetir velhas fórmulas de poder que não vingaram.

O preço a pagar pelo voluntarismo poderá ser alto. O acalentado projeto de retorno ao poder, em 2018, corre sério risco de ser comprometido. É quase uma marca da história recente do PSDB: muito mais perdas do que ganhos. Vai longe o tempo de glória dos tucanos. O apogeu foi a eleição de Fernando Henrique Cardoso, a reboque do sucesso do Plano Real, em 1994. Desde 2002, porém, os tucanos foram desalojados pelo PT. E a ficha parece não ter caído até hoje. O problema, no que constitui o principal obstáculo, é que a cúpula do PSDB, com seus velhos caciques, vive do passado e reage a todas as tentativas de renovação. As alas de intelectuais, os chamados “cabeças-pretas” e mesmo os quadros que entraram pregando mudanças progressistas não são considerados nas decisões. É o que revelam os últimos movimentos intestinos do tucanato.




Num gesto providencial, concebido na quinta-feira 9, o senador Aécio Neves, presidente licenciado do partido, destituiu o senador Tasso Jereissati da presidência interina, que ocupava desde maio. Em seu lugar, assumiu o ex-governador Alberto Goldman. Ao comunicar a decisão ao tucano do Ceará, Aécio argumentou que o fez para garantir “a desejável isonomia” na disputa pela presidência do PSDB, marcada para 9 de dezembro. Faz sentido. Estão na disputa pelo cargo o próprio Tasso e o governador de Goiás, Marconi Perillo. Quem também passou a cogitar nos últimos dias a hipótese de comandar a legenda foi o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. É evidente que, na condição de presidente interino, Tasso iria exercer forte influência na sucessão. Ao pender para Tasso e companhia, a balança tucana, nesse caso, ficaria desequilibrada. “Foi necessária a intervenção para garantir a democracia no PSDB”, disse o deputado mineiro e aliado de Aécio, Marcos Pestana. Antes mesmo do anúncio de que o senador cearense seria destituído da presidência do partido, Tasso e Aécio tiveram uma discussão dura. O político mineiro havia tentado uma saída sem sobressaltos, no caso a renúncia consentida de Tasso. Sobressaiu a típica verve do coronel do Nordeste, afeita ao confronto. Representantes da guarda antiga do tucanato, Alckmin – que ainda na noite de quinta-feira 9 foi a FHC na tentativa de pressionar Aécio – e Tasso, passaram a desferir pesados ataques públicos ao mineiro. A partir daí, a divisão se tornou aberta. Dessa vez, sem panos quentes.

Freio de arrumação


Por mais que uma intervenção pareça um gesto brusco, Aécio impôs ao partido um necessário freio de arrumação. Tasso e os condestáveis da legenda articulavam nos bastidores para dominar os próximos passos no tabuleiro do xadrez tucano. A fim de saciar sua fome de poder, o presidente destituído e seus aliados queriam não só emplacar a presidência da sigla como assegurar a preponderância na hora de decidir quem seria o escolhido para a corrida de 2018. Tudo isso para não correrem o risco, numa eventual prévia para a escolha do candidato ao Planalto, de os chamados cabeças-pretas e outras correntes pró-renovação exercerem influência na decisão.

Os jovens deputados federais que lutam para oxigenar o PSDB são a prova de que nem tudo é anacrônico no partido. O núcleo inclui a deputada Mariana Carvalho (SP), que ocupa a segunda secretaria da Mesa da Câmara, o deputado Pedro Cunha Lima (PB), primeiro vice-líder do PSDB na Câmara e filho do senador Cássio Cunha Lima. Ele foi o deputado mais votado na Paraíba em 2014. Outros destaques dos quadros mais jovens do PSDB são o deputado Arthur Virgílio Bisneto (AM), filho do prefeito de Manaus, e a deputada Sheridan (RO), que foi relatora da reforma política. Todos eles tentam abrir espaço no partido para crescer. Foi fato novo a vitória do empresário João Doria em São Paulo, depois de uma disputa interna com Andrea Matarazzo, que recebeu apoio da velha guarda. Na verdade, os caciques tentam manter tudo sob controle, avessos que são às mudanças. Tasso Jereissati pertence à velha guarda. E seu adversário, Marconi Perillo, se identifica com as novas correntes. Mas nada é tão simples no PSDB.



Na última semana, divulgou manifesto em apoio à Tasso um grupo de economistas tucanos ao qual se somou o sociólogo e cientista político Bolivar Lamounier. O documento, firmado por Edmar Bacha, Elena Landau, Luiz Roberto Cunha, Persio Arida e Lamounier, faz a seguinte pregação: “O PSDB deve aprovar as reformas que modernizem o Brasil, independentemente de quem as envie ao Congresso ou as proponha. Mas não deve participar de um governo que não parece ter se comportado de acordo com os preceitos éticos na condução dos assuntos de interesse público”. Na verdade, esse grupo estava inicialmente simpático a candidatura de Perillo. Mas, temendo vincular esse apoio a qualquer ideia de endosso à permanência da sigla no governo Temer, resolveu mudar de lado. Nos bastidores, especula-se que o grupo que elaborou o manifesto pode deixar a legenda no início de 2018 em caso de derrota de Jereissati. Outro economista tucano, Gustavo Franco, que foi presidente do Banco Central no governo FHC, já se bandeou para o Partido Novo.


O PSDB parece insistir no erro, ao trilhar o
caminho que não tem levado a lugar nenhum


Mediador

Apesar de destituído por Aécio Neves, Tasso Jereissatti acredita que terá como aliado até a derradeira disputa em 2018 o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que na verdade tem atuado como mediador, ora pendendo para um lado, ora para o outro. Na última semana, ele publicou artigo defendendo a saída do PSDB da base governista. “É hora de decidir”, cobrou FHC. “Ou o PSDB desembarca do governo na Convenção de dezembro próximo, e reafirma que contiunuará votando pelas reformas, ou sua confusão com o peemedebismo dominante o tornará coadjuvante na briga sucessória”, alertou. E aproveitou para fazer uma citação indireta aos “cabeças-pretas”: “Os cabelos não precisam ser tingidos, mas a alma deve ser nova, para que a coligação que formar ganhe credibilidade e possa virar a página dos desastres recentes”.



Do outro lado da disputa pelo comando do PSDB, Marconi Perillo, apoiado pelo prefeito de São Paulo, João Doria, pelos quatro ministros tucanos, por governadores do partido, por Aécio Neves e pela bancada de Minas Gerais tem um discurso progressista que agrada àqueles dispostos a uma reviravolta da agremiação. Na tentativa de representar a brisa de renovação, Perillo luta para prevalecer sobre os caciques paulistas, que fundaram o partido para escapar de um PMDB então dominado por Orestes Quércia. Perillo, que é um tucano de safra mais recente, lançou-se à revelia da cúpula. De início, até buscou a conciliação com Jereissati em torno de uma candidatura única para tentar “unificar o partido”. A hipótese foi prontamente descartada pelo cearense.

A questão que fica agora é: daqui para a frente, que rumo tomará o PSDB? Deixará se levar de vez pelas velhas e coroadas cabeças cheias de planos conservadores cujo tempo já passou? Ou vai abrir alas para as novas lideranças? Pelo andar da carruagem, o PSDB parece insistir no erro e trilhar o caminho que não está levando a lugar nenhum. Desenha-se, por influência da cúpula, uma provável vitória de Tasso Jereissati. Caso isso aconteça, cresce a chance de o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ser confirmado como o candidato tucano à presidência em 2018. Ou seja, Alckmin, que foi fragorosamente derrotado por um Lula desgastado pelo mensalão, tem grande possibilidade de enfrentar o mesmo adversário. E também muita chance de repetir o mau desempenho.


Caso apostasse em novidades, a escolha do PSDB penderia a favor do prefeito João Doria, responsável pelo último grande feito dos tucanos. Ele derrotou o PT no seu campo preferido e na periferia de São Paulo, levando a peleja em primeiro turno, em um feito inédito na capital paulista. Visivelmente encurralado pela velha guarda, Doria aventa a possibilidade de migrar para outra legenda. O PMDB e o DEM, além de siglas menores como o Partido Novo, enxergam Doria como uma noiva a ser cobiçada. O gesto dele há algumas semanas pregando a busca de uma candidatura única de centro agradou a vários partidos. Se Tasso assumir a presidência e apoiar a candidatura de Alckmin, restará ao prefeito a mudança de ares, caso queira mesmo se candidatar à Presidência em 2018.

Não é de hoje que o PSDB enfrenta disputas internas. Mas, agora, como se vê, corre o risco de comprometer qualquer pretensão que ainda alimente de voltar ao poder. Se viveu um momento importante em 2014, com a votação surpreendente de Aécio Neves no segundo turno, quase derrotando Dilma Rousseff, o PSDB pode perder de uma vez por todas o protagonismo que ainda lhe resta. Dependendo das escolhas que façam seus velhos caciques, o partido voltará à estaca zero a menos de um ano da eleição. Os tucanos não têm mais tempo a perder. É hora de optar.


Foto: Ernesto Rodrigues/Folhapress; Werther Santana/Estadão Conteúdo; Roberto Stuckert Filho; Antônio Araújo/Agência Tempo/Estadão Conteúdo; Ricardo Stuckert; Joédson Alves/IstoÉ; AFP Photo/Yasuyoshi Chiba.

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