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Míriam Leitão: ‘Fake news são uma ameaça à imprensa e à democracia’ Alvo de notícias falsas, jornalista diz que prefere não entrar em 'briga de rua' para desmenti-las, mas que está atenta caso precise procurar a Justiça



A jornalista Miriam Leitão no lançamento do seu livro "A verdade é teimosa", na Livraria Saraiva no Shopping Pátio Higienópolis, zona oeste de São Paulo - 22/02/2017 (Bruno Poletti/Folhapress)Nos últimos meses, a jornalista Míriam Leitão tem sido alvo de variadas fake news, as notícias falsas. Teria ela se arrependido de ter lutado contra a ditadura? E tecido duras críticas ao Bolsa Família? E participado de um assalto ao banco Banespa em 1968? A resposta é não para todas essas perguntas, mas a apresentadora da GloboNews nem sempre acha produtivo desmentir as barbaridades que vê sobre si espalhadas na internet. “Acho muito difícil essa situação, porque você entra em uma briga de rua”, diz a VEJA. “Não vou ficar correndo atrás de falsificadores, mas estou atenta para, se necessário, entrar na Justiça ou denunciar.”

Em tempos de polarização política ainda mais acirrada pela corrida eleitoral, a jornalista afirma que não perde tempo respondendo a ofensas nas redes sociais quando algum seguidor não concorda com algo que ela disse. “Vivemos em uma democracia, gosto das divergências, das discordâncias. Mas o ambiente democrático é um lugar onde as opiniões devem ser colocadas de forma educada. Eu não entro em debate, recebo muito ataque e nunca respondo”, diz.

Alvo de um comentário lamentável de Jair Bolsonaro (PSL) em 2015, quando o atual presidenciável disse “coitada da cobra” ao falar sobre a tortura sofrida pela jornalista, que ficou em uma sala com uma jiboia por horas ao ser presa pela ditadura, Míriam diz que as pessoas têm o direito de achar que aquele período foi bom. “O Bolsonaro diz que é favorável à tortura, você pode ter essa opinião”, afirma. Ela critica, porém, a postura do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), José Antonio Dias Toffoli, que disse na última segunda-feira que prefere ver o golpe militar como “movimento de 64”.

Confira a entrevista:
Nos últimos meses, você foi alvo de várias notícias falsas. Como vê esse momento em que diversas pessoas preferem acreditar no que veem nas redes sociais e no WhatsApp? Estamos em um momento muito perturbador. Como vítima, a gente não sabe como agir, dá uma paralisia num primeiro momento. Como jornalista, vejo que ficamos com um trabalho a mais, de fazer a triagem e desmentir notícias falsas, tal a dimensão que isso passou a ocupar na vida das pessoas. É um fenômeno que precisa ser combatido. Circulou recentemente um texto falsamente atribuído a mim que critica o Bolsa Família e diz que eu me arrependo de ter lutado contra a ditadura. Só tenho críticas pontuais ao Bolsa Família, uma das melhores políticas públicas que o Brasil já criou para combater a pobreza. A partir daí devemos criar novas, não pode ser a única. Sobre a ditadura, pelo contrário, me orgulho de ter combatido na juventude.

As notícias falsas que envolvem seu nome te incomodam? São muito ruins, uma agressão. Causam uma sensação de impotência. Mas tenho textos publicados, sou colunista de jornal, não é difícil as pessoas descobrirem o que eu penso realmente. Nas redes sociais, há críticas e também ofensas, e você tem o direito de bloquear aquelas pessoas que te ofendem. Vivemos em uma democracia, gosto das divergências, das discordâncias. Mas o ambiente democrático é um lugar onde as opiniões devem ser colocadas de forma educada. Eu não entro em debate, recebo muito ataque e nunca respondo, porque eu tenho outros canais para dar informações e dizer o que penso.

Raramente você se pronuncia sobre as notícias falsas que circulam envolvendo sua história. Por quê? Desmenti esse texto sobre o Bolsa Família e a ditadura em uma coluna no jornal O Globo. Tinha vários erros factuais, era todo falso. Eu precisei desmentir, porque muitos amigos meus queriam rebater em suas próprias redes. Publiquei e passei para os meus amigos repassarem. Mas acho muito difícil essa situação, porque você entra em uma briga de rua. Precisamos ter um pensamento estratégico. Já há caminhos de rastreamento e pessoas que criam informações falsas sobre alguém devem responder judicialmente. Não vou ficar correndo atrás de falsificadores, mas estou atenta para, se necessário, entrar na Justiça ou denunciar.

Nesse momento de corrida eleitoral, as notícias falsas passaram a se propagar com mais intensidade. Como elas podem influenciar nas eleições? A partir desta eleição, todos – imprensa, instituições democráticas e Justiça Eleitoral –, criaram mecanismos para combater as notícias falsas porque já sabiam antes que tudo isso aconteceria. Mas ficou aquém da dimensão do problema. A gente viu que a mentira repetida e multiplicada pelos canais, que são muito rápidos, criou perturbações sociais, econômicas e políticas. Mentiras sempre foram usadas na política, como arma eleitoral, mesmo antes da internet. Agora você pode contratar um pelotão de falsificadores de informação, e pode ter muita gente usando robô para disseminá-las. É uma ameaça à imprensa e à democracia, porque a intensidade de uma informação falsa pode interferir na eleição. O WhatsApp é um terreno sem qualquer filtro, em que a mentira se propaga. Mas é fundamental para tudo hoje. Vejo com otimismo essa nova era da informação. Precisamos aprender a criar anticorpos para isso.

Mentiras sempre foram usadas na política, como arma eleitoral, mesmo antes da internet. Agora você pode contratar um pelotão de falsificadores de informação. É uma ameaça à imprensa e à democracia, porque a intensidade de uma informação falsa pode interferir na eleição.

Miriam Leitão

Como enxerga as iniciativas criadas para desmentir as notícias falsas? Há motivos para ter esperança. Teve um dia que uma notícia completamente louca surgiu sobre mim, a de que eu teria participado de um assalto ao banco Banespa, em São Paulo. Na época em que aconteceu o assalto (1968), eu morava em Caratinga (sua cidade natal, em Minas Gerais), nunca tinha ido a São Paulo e era adolescente. Mas antes de eu ter tempo de reagir, vi uma blogueira que nem conheço falando que aquilo era falso e explicando como identificar notícias falsas. Achei muito interessante. Tem muita gente que está começando a desenvolver técnicas para identificar as notícias falsas, até com as ferramentas que os jornalistas ensinaram. É a primeira eleição que tem tanta agência de checagem para ver o que os candidatos falam. A gente não sabe ainda como lutar com um problema dessa dimensão, mas estamos batalhando e criando uma geração de jornalistas especializados na técnica de desfazer mentiras.


O que sugere para as pessoas que acreditam e propagam as notícias falsas? As pessoas têm que tomar mais cuidado. Muita gente ajuda a propagar a informação por não saber que é falsa. Essas pessoas de boa fé que estão na rede precisam ter mais cuidado. A gente tem que se dar conta de que cada um de nós virou um comunicador, com esses novos tempos.

Como reage às notícias falsas nos grupos de WhatsApp de que faz parte? Eu participo de poucos grupos. Minha família é muito unida e a gente não tem muito essa coisa de brigar por essas questões. Passamos por esse ano eleitoral sem nenhuma briga, cada um com seu candidato, mas com os mesmos valores e princípios. Às vezes aparece uma ou outra informação sobre saúde, mas como tem muito jornalista na família, logo alguém desmente.




As pessoas podem ter várias avaliações sobre a história, mas não podem negar a sequência de eventos. Alguém pode achar que a ditadura foi boa. O Bolsonaro diz que é favorável à tortura, você pode ter essa opinião. Mas o país tem que ter sua história registrada, não pode criar uma narrativa falsa sobre um período com acontecimentos tão preocupantes

Miriam Leitão


Redes sociais e o WhatsApp devem ser responsabilizados pelas eventuais notícias falsas que circulam nesses serviços? É sim uma responsabilidade deles. O WhatsApp precisa construir algum mecanismo de proteção para que ele não seja usado em práticas criminosas.

Nos últimos meses a ditadura voltou a ser um assunto fortemente debatido, com uma corrente dizendo que não foi uma ditadura realmente. O que acha disso? As pessoas podem ter várias avaliações sobre a história, mas não podem negar a sequência de eventos. Alguém pode achar que a ditadura foi boa. O Bolsonaro diz que é favorável à tortura, você pode ter essa opinião. Mas o país tem que ter sua história registrada, não pode criar uma narrativa falsa sobre um período com acontecimentos tão preocupantes. Não me incomoda ver pessoas nas redes falando essas coisas, mas o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF, José Antonio Dias Toffoli), chamar a ditadura de “movimento”? Um momento em que se fechou o Congresso, em que ministros do Supremo foram cassados, em que se prendeu, torturou e matou. O STF é o guardião da Constituição e seu presidente tem um papel fundamental, pois tem a palavra final sobre o que significam essas leis. A ditadura rasgou a Constituição eleita e escrita democraticamente e impôs uma outra criada por militares. E ele chama isso de movimento? Isso é preocupante. Eu não sei o que ele quis dizer com isso, mas foi muito infeliz.

VEJA

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