Donos dos dois maiores orçamentos para a temporada 2019, Flamengo e Palmeiras são apontados como os principais favoritos para a conquista do Brasileiro, que começa neste sábado (27).

No ano passado, as duas equipes dominaram a disputa, com o time alviverde conquistando o título, o seu segundo nas últimas três edições, e o clube rubro-negro com o vice-campeonato.Neste ano, o temor é que a diferença dessas duas equipes para as demais fique ainda maior.

“Os times que mais investem são normalmente os que ganham. Se continuar dessa forma, com uma diferença muito grande [de investimento] para os outros clubes, a tendência é concentrar os títulos ainda mais”, afirma Alberto Guerra, diretor de futebol do Grêmio.

Seu time tem o oitavo maior orçamento da Série A, com R$ 307 milhões. O valor é menos da metade do que o Flamengo pretende gastar no Brasileiro: R$ 765 milhões.

O clube gaúcho, que não ganha o Brasileiro desde 1996, resolveu apostar em competições de mata-mata, onde o poderio financeiro faz menos diferença em campo.

“Essa diferença financeira acaba sendo menor porque o elenco não precisa ser tão numeroso para a competição mata-mata. O que vai definir é o desempenho em jogos específicos, e não em 38 rodadas, quando os pontos da primeira e da última possuem o mesmo valor”, completa o dirigente. O Grêmio ganhou a Copa do Brasil em 2016 e a Libertadores em 2017.

Dono do menor orçamento da Série A, o presidente do CSA, Rafael Tenório, traça um cenário preocupante.

“Eu acredito que nos próximos cinco anos vai predominar o poderio do Flamengo e do Palmeiras. Não vejo com bons olhos”, afirmou

Para ele, o principal problema resultante do maior poderio financeiro dessas equipes é o inflacionamento dos salários dos jogadores, o que acaba prejudicando todos os times.

“A maioria dos clubes está quebrado porque gasta muito com salários. Esse pessoal precisa cair na realidade. Não dá para bancar esses valores”, disse, citando os salários de Arrascaeta e Gabriel, em torno de R$ 1,6 milhão e R$ 1,2 milhão, respectivamente.

“Um jogador desse paga a minha folha salarial toda, dois jogadores desses pagam a folha do Avaí, do Fortaleza e da Chapecoense. O nosso teto salarial é de R$ 90 mil”, concluiu.

À frente do Flamengo na reta final do Brasileiro do ano passado, o técnico Dorival Júnior concorda que os times com mais recursos irão dominar cada vez mais os torneios de pontos corridos.

“Pode acontecer uma ‘espanholização’ do torneio. Vejo que vai demorar um certo período, mas vem se acentuando. Os últimos campeonatos demonstram isso”, disse o técnico, sem time no momento.

Já para o consultor de marketing e gestão esportiva, Amir Somoggi, há outros fatores que impedirão que Flamengo e Palmeiras se distanciem dos rivais, mesmo com orçamentos mais volumosos.



“Não vai ter uma espanholização. Digo isso porque o Palmeiras não é capacitado para ser o Barcelona e nem o Flamengo para ser um Real Madrid. Tem muita coisa por trás além do dinheiro”, diz o especialista, citando que os dois espanhóis são exemplos de gestão no mundo.

O termo “espanholização” é usado como comparação ao futebol espanhol, há anos dominado por Barcelona e Real Madrid, equipes de maior orçamento do país e que se alternam como campeões.

Se confirmar o título neste sábado (27), contra o Levante, o clube catalão alcançará sua 10ª conquista em 15 anos. O arquirrival foi campeão nacional outras 4 vezes. O único a quebrar o duopólio foi o Atlético de Madri, campeão na temporada 2013/2014.

Os orçamentos dos times brasileiros para a temporada deste ano, de fato, mostram Flamengo e Palmeiras com uma vantagem significativa para os demais. No entanto, o desequilíbrio ainda não chegou ao mesmo patamar observado na Espanha.

Somados, os 20 clubes da primeira divisão gastarão R$ 5,49 bilhões na temporada. Deste valor, R$ 1,4 bilhão (25%) sairá dos cofres de Flamengo e Palmeiras.

Na Espanha, o teto de gastos das 20 equipes da primeira divisão na atual temporada é de 2,6 bilhões de euros. Desse total, Barcelona e Real Madrid são responsáveis 1,2 bilhão (cerca de 46%).

Outro ponto que mostra um equilíbrio maior no Brasil é a diferença do Flamengo para o time com o terceiro maior orçamento, o Corinthians.

A equipe alvinegra planeja gastar R$ 480 milhões em 2019, o que representa 62% do que será gasto pelos cariocas. Já no Espanhol, o Atlético de Madri tem orçamento de 293 milhões de euros, equivalente a 46% do gasto pelo Barcelona, que tem o maior orçamento do Espanhol (633 milhões de euros).

O Corinthians fez uma previsão modesta para 2019. Entretanto, o clube não fica tão atrás assim dos líderes. A diretoria decidiu não incluir nenhuma possível premiação, já que terminou os dois últimos anos no vermelho. Em 2017, o déficit foi de R$ 35 milhões. No ano passado, caiu para R$ 19 milhões. E agora a previsão da diretoria é fechar esta temporada com superávit de R$ 1 milhão.

Como acontece no continente europeu, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) pretende implantar no próximo ano o fair play financeiro.

As regras ainda não estão definidas. A ideia é fazer com que ainda em 2019 os clubes mostrem seus balancetes trimestrais e orçamentos. A entidade promete acompanhar de perto os números.

A partir daí, em 2020, os times passarão a ter algumas obrigações. As dívidas, por exemplo, não poderão ser maiores do que as de hoje, e o controle de gastos também será maior.

Outra esperança para exista maior equilíbrio entre as equipes é a nova formula de divisão dos direitos de transmissão do Brasileiro. A partir deste ano, o resultado em campo ajudará a determinar quanto cada equipe vai ganhar.

“Precisamos ter uma equipe muito forte e competitiva, para conseguirmos nos manter entre os primeiros colocados. Dessa forma, traremos um importante retorno financeiro, que ajudará a diminuir a diferença de receita em relação a outros clubes do país”, disse o presidente do Cruzeiro, Wagner Pires de Sá.

Os dirigentes de Palmeiras e Flamengo não retornaram os contatos da reportagem até a conclusão desta edição.

FOLHAPRESS

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