Um fato curioso na vida de Italo Ferreira é que ele não teve treinadores durante sua formação. Diferentemente de outros atletas, que desde cedo participam de escolas de surfe e buscam pegar o máximo de informação possível para colocar em prática, o jovem potiguar teve de se desdobrar sozinho com sua prancha, apenas observando atletas mais experientes nas praias do Rio Grande do Norte. A rotina era simples: assisti-los, pegar sua prancha e tentar reproduzir o que via. Este foi seu roteiro durante muito tempo, até que um olheiro, impressionado com seu talento, surgiu para impulsionar sua carreira.

Na praia de Genipabu, localizada na cidade de Extremoz, região metropolitana de Natal, Italo Ferreira foi apresentado ao mundo do surfe pela primeira vez. Numa competição local, disputou as categorias ‘Iniciante’ e ‘Mirim’. Com baterias acirradas contra outros garotos de sua idade, conseguiu vencer as duas modalidades e faturar seus primeiros troféus no surfe. Ali, naquele momento, a trajetória dele começava a ser traçada, e um futuro de muitos títulos se desenhava.

Aos 13 anos, o jovem Italo começou a ganhar dinheiro e a ajudar sua família com o esporte. Isso foi possível graças a uma das principais empresas do ramo – a Oakley – ter lhe oferecido patrocínio. A partir dali, seu crescimento no surfe se tornou inevitável. Afinal, com condições de investir na carreira e, consequentemente, de brigar por coisas melhores, os títulos locais foram surgindo cada vez mais, até que chegou a primeira proposta para deixar o Rio Grande do Norte em busca do sonho da profissionalização.

Mudança de rumo

Entre 2006 e 2007, depois de colecionar troféus nas competições locais, Italo precisou tomar uma decisão difícil: deixar seus familiares e amigos em Baía Formosa para tentar a vida em um grande centro brasileiro. Por intermédio da própria patrocinadora, foi convidado a morar em São Paulo, mas, como era adolescente, precisava contar com a aprovação dos pais. O sinal positivo aconteceu, embora “chorado”. Eles entendiam que a ida até São Paulo poderia mudar a vida da família, que passaria a ter melhores condições de sobrevivência por meio do trabalho do filho.

“Essa mudança marcou muito a trajetória dele. Todos nós encaramos como grande oportunidade, já que passaria a estar num grande centro. Lá tudo era mais fácil, ele conseguiu ser mais visto e, consequentemente, ganhou novos apoiadores. Além disso, a cidade foi importante para ele aprimorar suas técnicas, onde competiu com atletas melhores do que ele estava acostumado no Rio Grande do Norte”, conta Jackson Rodrigues, amigo de infância e um dos confidentes de Italo.

Apesar de não poder ir até São Paulo acompanhar a trajetória do filho, Luizinho encontrou uma forma de deixá-lo mais à vontade. Como a patrocinadora que propôs a mudança também tinha em seu quadro outro atleta potiguar (o também integrante da WCT, Jadson André), foi na figura dele que a família se agarrou. “Procuramos deixá-lo mais à vontade trabalhando com Jadson, que tinha mais experiência. Lá, um dos grandes incentivadores dele foi o próprio Jadson, que hoje está ao lado dele competindo na divisão de elite”, comemora.

Recém-saído de Baía Formosa, Italo precisou se desdobrar para dar conta de tanta novidade em sua vida. Menos de um ano após chegar em São Paulo, ele foi levado por patrocinadores ao México, onde o objetivo era melhorar suas técnicas em outros tipos de ondas, mais altas e agressivas do que estava acostumado no Brasil. “Ele foi para lá exclusivamente com o objetivo de treinar em outras ondas. Faz parte do processo, já que no futuro ele precisaria surfar em vários países e isso não poderia prejudicar os resultados dele”, explicou o amigo ao Estado.

Adaptado fora do Rio Grande do Norte, Italo passou a competir em torneios maiores e os resultados vieram naturalmente. No currículo, carrega dois títulos do Campeonato de Juniors: o Pro Júnior do Rio de Janeiro e também o de Garopaba, disputado na cidade da região sul de Santa Catarina. Seu auge em torneios nacionais aconteceu há cinco anos, em 2014, quando se sagrou campeão da SuperSurfe, principal competição do País, lhe rendendo o título de campeão brasileiro.

Estruturação familiar

Diante do sucesso alcançado com o surfe no Brasil, Italo Ferreira começou a mudar o patamar de vida de sua família no Rio Grande do Norte. Embora há 13 anos só consiga passar dois meses ao lado da sua base, ele procura ajudar como pode à longa distância e tem feito tudo com maestria. A casa simples e sofrida em que morava quando criança, numa das regiões mais altas e humildes de Baía Formosa, deu lugar a um belo primeiro andar que fica praticamente à beira-mar na cidade.

“A gente morava numa casa muito simples lá em cima, e conforme ele foi alcançando todo esse sucesso com o surfe, começou a ir nos ajudando por aqui. Comprou essa casa que moramos hoje, equipou todinha e paga todos os custos. Infelizmente a gente só consegue passar 60 dias por ano ao lado dele, o restante é longe porque ele fica se preparando para as competições. Mesmo assim, Italo banca tudo por aqui, e inclusive me proibiu de vender meus peixes, mas, como sou teimoso, pelo menos duas vezes por semana ainda vou na Pipa deixar umas encomendas a clientes de longas datas”, brinca Luizinho.

No imóvel em que seus pais moram, também mora sua irmã, Poliana Ferreira. Na parte de cima da casa, funciona uma pousada que auxilia na arrecadação de fundos para manter a família em Baía Formosa. Por ser uma pousada com as digitais de Italo, a demanda é sempre alta, principalmente no período do verão, onde o sol brinda nativos e turistas com belos dias e ótimas paisagens no município, hoje considerado um dos polos do turismo norte-rio-grandense.

“Nós construímos essa pousada bem no início, mas com o crescimento dele no surfe ele mesmo reformou. Hoje está uma pousada muito aconchegante que a gente utiliza para ajudar nas nossas despesas. Apesar de todo o sucesso que alcançou nessa modalidade, ele nunca deixou de olhar para sua família. Tudo que a gente tem é graças a ele. Aquele menino humilde que saiu de Baía Formosa com 13 anos se transformou num grande campeão, mas com o mesmo caráter de sempre, e isso muito nos orgulha enquanto pais.”

Entrada na WCT e consolidação do trabalho

Incentivado pelos principais títulos conquistados no Brasil, Italo Ferreira decidiu, ainda em 2014, ingressar no Circuito Mundial. Como manda o regulamento, chegou para disputar a World Men’s Qualifying Series (WQS), considerada a divisão de acesso da modalidade. Enfrentando adversários que há anos disputavam o torneio em busca da chegada até a elite, ele teve sucesso e logo na sua primeira participação terminou no 7.º lugar, conseguindo o acesso para disputar a WCT.

Numa ascensão meteórica, o surfista potiguar disputou a primeira divisão no ano seguinte e conquistou resultados inimagináveis para um novato: chegou a três quartas de final, uma semifinal e uma final. O troféu não veio em nenhuma das etapas, mas seu desempenho surpreendente lhe rendeu o título de “Novato do Ano” na elite mundial, abrindo as portas para o sucesso dentro do torneio. Nas costas, carrega até hoje o número 15, que marcou o ano de sua estreia no Circuito.

Em 2016, Italo não conseguiu repetir o ritmo da temporada de estreia e encerrou sua participação em 15.º lugar, mas foi no ano seguinte que ele teve seu pior desempenho, devido a uma lesão no tornozelo, que lhe deixou na 22.ª colocação. No ano passado, conseguiu se recuperar e fez, até então, sua melhor temporada na elite, terminando em 4.º. Foi praticamente uma preparação para o ano de 2019, onde em uma recuperação surpreendente, utilizou as últimas três etapas do torneio para arrancar até a liderança, acabando com uma desvantagem que chegou a ser de 10 mil pontos.

Ainda longe de Italo, que chegou a Baía Formosa na véspera do Natal, Luizinho comentou da emoção que foi ver o filho campeão do mundo. Ele, que em 2015 chegou a ser hospitalizado no Rio de Janeiro por causa de dores no peito (decorrentes das emoções vivenciadas na primeira temporada de Italo no WCT), esbanjou orgulho do herdeiro e destacou sua felicidade pela conquista.

“Para ser sincero, aqui ninguém acredita ainda que isso tudo está acontecendo. Por mais que a gente tenha ficado de plantão aqui assistindo até o resultado final, estamos sem acreditar que ele foi campeão de verdade. A emoção é muito grande. Tínhamos confiança de que um dia ele iria ser campeão mundial, mas não esperávamos que fosse tão cedo. Tem surfista que está tentando há 5, 6 temporadas ganhar pelo menos uma etapa e não consegue, enquanto ele já venceu 6 etapas e agora alcançou o ápice. Estamos muitos orgulhosos e sem palavras para descrever tanta emoção”, disse ao Estado.

Estadão Conteúdo

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